Saldo rápido do debate de ontem: ao contrário de 2009, em que o debate entre os dois me pareceu muito equilibrado, ontem Portas saiu com ligeira vantagem. Estava mais calmo, soube resistir às provocações e insistir nos pontos que mais doíam a Sócrates.
Sócrates, por outro lado, apesar de ter tido um bom começo, não conseguiu disfarçar a sua falta de calma e irritação em alguns momentos. Penso que saiu a perder com toda a encenação da capinha vazia e com o show final de olhar a câmara, como se estivesse a olhar directamente para os portugueses. De resto, na sua cartilha, esteve impecável. Nem outra coisa seria de esperar. Ela está minuciosamente decorada por toda a máquina do PS.
Alguns pormenores:
1) Primeiro, Sócrates acusou o CDS de não ter qualquer proposta e de apenas ter querido fazer cair o Governo, para pouco tempo depois dizer que as propostas do CDS (agora já as tinha) eram populistas e iam todas no sentido de aumentar despesa, e não de reduzir.
2) Penso que faltou a Portas insistir, preto no branco, nem que para isso fosse preciso repetir, as propostas de reduzir os vencimentos e o número dos gestores de empresas públicas que o PS chumbou, as tentativas de suspender as grandes obras e a suspensão de novas PPP. Referiu, ao de leve, o TGV e as PPP. Penso que se abordasse os vencimentos dos gestores das empresas públicas, apesar de não ter tanto peso no orçamento, teria mais peso na percepção popular.
2) Sócrates acusou Portas de chumbar o PEC4 e agora assinar o acordo da troika, que tem todas as medidas do PEC4. Portas esteve bem aqui, em quase toda a argumentação. Centrou-se nas diferenças e nos erros do PEC4 no que tocava as pensões mínimas e esse foi um dos pontos mais baixos para Sócrates, desmentido que foi em directo. Faltou no entanto, a meu ver, salientar que para além das grandes diferenças entre os dois planos, a maior diferença é que este vem com a contrapartida de um empréstimo que é essencial para a sobrevivência financeira do país.
No geral, um bom debate. Portas soube dosear a argumentação e as intervenções para vários públicos-alvo. Misturou interpretações de dados económicos (que nem toda a população percebe) com considerações mais básicas e acessíveis. Salpicou isto com duas frases fortes como "vive na estratosfera" e "mente mal" que, convenhamos, muita gente gostaria de ter a oportunidade de dizer a Sócrates olhos nos olhos. Não se duvide que Portas, no terreno, receberá os devidos louros do povo por ter tido a audácia de o dizer.
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