Rua Direita
Terça-feira, 17 de Maio de 2011
Tomás Belchior

Vou começar a minha defesa do manifesto eleitoral do CDS com uma adaptação livre do Michael Oakeshott:

 

"A estratosfera liberal/conservadora/democrata-cristã pode ser melhor do que a estratosfera socrática mas faz parte da mesma camada da atmosfera".

 

Tenho alguma dificuldade em digerir a argumentação de pessoas que, por um lado, acham que os partidos devem agregar e representar genericamente as preferências individuais dos seus eleitores e, por outro, acham que o resultado dessa agregação é uma traição porque descobrem que as preferências representadas nos partidos não são coincidentes entre elas. Tenho sobretudo alguma dificuldade em aceitar que esta contradição possa servir de base a uma recusa de participação no processo político.

 

Por exemplo, por muito que me custe, tenho que aceitar que qualquer partido que defenda (como eu defendo) o fim do Estado como prestador de serviços de saúde dará rapidamente por si a jogar no campeonato do POUS. Isto significa que se quero realmente que o papel do Estado na saúde se altere não vou poder contar com uma epifania colectiva dos portugueses, nem dos partidos que os representam. Vou ter de os convencer. Vou ter de o fazer gradualmente. Vou ter de andar a engolir sapos até conseguir fazê-lo. E vou ter de chegar ao fim do caminho sem eu próprio ter mudado de opinião.

 

É esse o preço a pagar pelo combate político democrático: nunca conseguiremos obter soluções "perfeitas" pela simples razão de que as pessoas que estão do outro lado da barricada também votam e, às vezes, até votam no mesmo partido que nós.

 

E isso, ao contrário do que muitos pensam, é uma virtude, não um defeito.

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Publicado Por Tomás Belchior em 17/5/11
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13 comentários:
De Mário Cruz a 17 de Maio de 2011 às 03:55
Oh malta da direita, preciso de uma resposta. O meu pai e os meus dois avós querem saber se vcs sabem se o Portas está a pensar usar os nossos votos, para depois se aliar ao Sócrates. Gostavamos de saber isto antes do dia 5. A malta aqui na família costuma votar toda no CDS mas, se é para o Paulinho se juntar ao Sócrates depois das eleições, não queremos e vamos todos votar noutro lado.
Melhores cumprimentos,


De Mário a 17 de Maio de 2011 às 11:29
Tomás,

Li o link que me mandou e todos vimos o frente a frente Portas/Sócrates. Achámos curto. O Dr. Portas quando quer consegue ser mais claro. O amigo Tomás pode usar a sua influência para convencer o nosso Portas a ser "clarinho como a água" e nos tirar as dúvidas todas? Sei que ele é capaz, basta-lhe querer. E nó agradecemos.
;-))


De Tomás Belchior a 17 de Maio de 2011 às 12:36
Mário,

A minha influência, como lhe chama, é nula. Estou a usar as mesmas fontes que o Mário: a actuação do CDS desde as eleições de 2009, as repetidas declarações públicas do líder do partido, o que o CDS se propõe fazer se chegar ao governo, etc.

A mim não me sobram grandes dúvidas que o Sócrates e o CDS são incompatíveis. Também não me sobram grandes dúvidas que o próximo governo será um governo de coligação e que essa coligação não incluirá o Sócrates. Neste cenário, o meu conselho é deixar de fazer contas que vão provavelmente sair furadas e votar no partido que melhor o representa. Ponto.

Espero ter sido útil.


De Mário a 17 de Maio de 2011 às 12:59
Gostei desta parte "A mim não me sobram grandes dúvidas que o Sócrates e o CDS são incompatíveis. Também não me sobram grandes dúvidas que o próximo governo será um governo de coligação e que essa coligação não incluirá o Sócrates".
Falar destas coisas é sempre útil. Obrigado pela atenção que me deu. Vamos lá ver o que nos reserva o futuro.


De Francisco Meireles a 17 de Maio de 2011 às 10:42
Subscrevo inteiramente toda a linha de raciocínio que aplico nalgumas áreas do manifesto e das posições tradicionais do CDS. Curiosamente, por acaso, não à área da saúde. Et pour cause...


De Tomás Belchior a 17 de Maio de 2011 às 12:38
E, no entanto, cá estamos nós no mesmo barco. Parece-me um bom sinal. :)


De Vasco a 17 de Maio de 2011 às 11:22
Sim, o facto de discordar totalmente da posição do CDS sobre a RTP e a defesa da língua portuguesa (???? defender uma ortografia mutilada???), não me impede de concordar com outros aspectos, persistente que seja a minha irritação com a aparente bonomia (seria bovina se não fosse oportunista) da classe política face ao AO.


De Henrique Nunes a 17 de Maio de 2011 às 13:19
Tenho que concordar com o Vasco. Seria bom ver o CDS a defender a suspensão do Aborto Ortográfico ou, pelo menos, exigir que se leve esse assunto a referendo público.


Não concebo como é que, num assunto tão crucial como o nosso património linguístico - provavelmente das poucas contribuições verdadeiramente úteis e duradouras que deixámos aos povos por cujas terras passámos, meia-dúzia de iluminados de identidade mais ou menos vaga,  se permita alterar, sem quê nem para quê, a língua que o Povo fala e escreve. Fossem quais fossem as razões (e são uma anedota as apresentadas), impunha-se sempre uma consulta popular. 


Claramente o interesse aqui reside nas editoras, que se preparam para inundar o nosso mercado com livros escritos em Brasileiro, poupando custos em edições separadas para Portugal e Brasil. A questão é: será que, por isso, os livros ficarão mais baratos? Sim, para os editores. Aposto que o consumidor final (Português) continuará a pagar a enormidade que se pede hoje por um simples paperback... Ou então vai ver o Peso Pesado...


De Henrique Nunes a 17 de Maio de 2011 às 11:27
Caro Tomás,


há uma coisa que nunca ninguém me conseguiu explicar acerca do processo democrático: o que é que se faz se a maioria vota recorrentemente em incompetentes/burlões/escroques? 


Posso ser só eu, mas parece-me que a janela de oportunidade para levar a cabo esse processo de convencimento e ingestão de sapos está a esgotar-se rapidamente... O que fazemos no caso (não tão improvável assim) de o próximo governo ser parecido com os últimos e continuar, inexoravelmente, a levar o País para o colapso? Esperamos que colapse? E depois?
 
Lembro-me do Professor Medina Carreira no programa Plano Inclinado (estranho desaparecimento), quando interrogado, após uma das suas características tiradas acutilantes, sobre qual seria, então, a solução para o País; responder que, hoje em dia, as pessoas partem do princípio que tudo tem solução... mas, na realidade, há problemas que não têm solução.


Quem conhece a história (a verdadeira, não a mistificação que é ensinada na escola) do que foi a Iª República, ou antes - nas palavras de Eça, a "balbúrdia sanguinolenta" que configuraram os vários governos e partidos e revoluções e movimentos após a proclamação da República, mas sobretudo a admnistração do Estado e a forma desleixada de fazer as coisas que tanto caracteriza esse período como o nosso, não pode deixar de ficar alarmado com o impressionante paralelo entre muitas situações na altura e agora. 
Como invertemos esta tendência destrutiva? Como implementamos a competência e o rigor na nossa sociedade quando a maioria se opõe? Como resolve a Democracia este problema?


De Francisco Meireles a 17 de Maio de 2011 às 14:18
Caro Henrique,


Não me sendo dirigida, a sua pergunta toca-me. E isso porque assenta num erro, apesar do próprio Henrique apontar a resposta, embora não tire dela todas as consequências.


A democracia é um sistema de governo apenas na medida em fornece um determinado tipo de legitimidade aos decisores, através da forma da sua escolha.


O erro está em pensar que isso é uma garantia da qualidade dos decisores. Os decisores são obviamente o resultado das escolhas dos eleitores. Sendo certo que estas são condicionadas por muitos factores, em Portugal sobretudo o peso dos directórios dos partidos, a verdade é que os Povos têm o que merecem em face das escolhas que fazem. Caso voltem a escolher políticos que já os informaram que iriam continuar a fazer o que fazem há 6 anos (Sócrates) ou outros que nem conseguem governar o próprio partido, terão exactamente os resultados que merecem. A forma de combater isto é, obviamente, militar contra isto. Até convencer eleitores suficientes.


O erro está em pensar que qualquer outro sistema permite escolher melhores decisores. Mesmo que isso seja momentaneamente verdade, essa verdade nunca é persistente, nem muito menos é legitima para quem não concorde com a escolha inicial.


A legitimidade é um aspecto essencial destas matérias. Aceitar más decisões e, por exemplo, pagar os custos dessas más decisões, só é aceitável pacificamente quando se concorda com o mérito do processo de escolha dos decisores. Como é o caso da democracia, actualmente. É por isso que a democracia não é apenas o sistema menos mau; é o melhor. Mesmo que as actuais instituições, no caso português, precisem de ser muito melhoradas. Nada nos impede de trabalhar nesse sentido, mesmo não sendo maioritários.


Não havendo soluções para todos os problemas, pergunto se a resposta à sua pergunta seria "mudar de Povo?"


Não me parece patriótica a resposta afirmativa. Mesmo que a consequência seja um País que não oferece grandes motivos de orgulho.


De Henrique Nunes a 17 de Maio de 2011 às 18:25

Respondo ao Francisco e ao Tomás:


"O erro está em pensar que isso é uma garantia da qualidade dos decisores"

Talvez isso possa ser entendido da forma como expus o meu pensamento, mas não era isso que eu pretendia transmitir. 
A Democracia, no meu entender - e penso que é a única forma de sustentar a argumentação a seu favor como sistema político, pressupõe que a maioria faz a escolha acertada na maioria das vezes. Sem este pressuposto, não vejo porque há-de a vontade da maioria ser mais justa que a vontade da minoria. 


"Não havendo soluções para todos os problemas, pergunto se a resposta à sua pergunta seria "mudar de Povo?""


Depende da escala temporal. A longo prazo, sim, penso que deveríamos mudar de Povo; trabalhando e educando para fornecer a cada pessoa as elementares faculdades intelectuais para que possa decidir qual a escolha certa. 
Diz-se que votar é um dever. Pois eu discordo. É um direito, tal como a liberdade de expressão. E ninguém pretende argumentar que as pessoas têm o dever de se exprimir, mesmo quando não querem...
O que eu acho um dever é, quando se vota, fazê-lo estando o mais informado possível. Isto é, cada cidadão deve esforçar-se para se informar e estar na posse da maior quantidade possível de factos relevantes que sustentem a sua escolha, e exercer o seu direito de a manifestar. É um pouco diferente...


Já a curto prazo, o problema é mais difícil, mas não menos grave e imperioso. Confesso que tenho pensado muito ultimamente neste problema e penso que haverá certas medidas que se poderiam tomar. Por exemplo, não me parece, de todo, justo que toda a gente possa escolher, mas só alguns contribuam. Onde está a justiça disto? O que se passa em Portugal, neste momento, é algo análogo ao que seria se os pobres que beneficiam da misericórdia da Santa Casa, se irem perfilar à porta daquela instituição, prontos para lhe escolher o director...
Ora, isto não faz sentido algum!


Quem gere o dinheiro contribuído deve ser escolhido por quem contribui. Penso que isto está na raíz da mentalidade que se apossou da sociedade portuguesa e que tanto contribui para a desastrosa situação em que nos encontramos.
Pois se alguém não contribui (e note-se que há várias maneiras de contribuir, impostos são apenas uma), o que tem essa pessoa a perder, se fizer a escolha errada? Mais, o que tem a perder se for na conversa de um qualquer oportunista que lhe promete mundos e fundos? Nada. Então para quê dar-se ao trabalho de empregar pensamento crítico e ponderação na sua decisão?


No fundo, e como diz o Tomás, tudo se resume a um incentivo. E eu acho que não existe o mínimo incentivo para que as pessoas procurem apurar a sua escolha. Na verdade, hoje em dia, para se ter poder sobre o destino da Nação, só é preciso... sobreviver! Acho isto profundamente injusto. O voto devia ser atribuído mediante a contribuição ou não-contribuição de cada pessoa para a sociedade em que se integra. Isto daria um sinal forte a toda a gente, mas sobretudo os mais novos, de que para serem admitidos entre os seus pares, devem procurar contribuir (contribuir aqui poderá ser tão somente voluntariarem-se para uma ISS, por exemplo).
Isto não é uma subversão da Democracia, pois que a torna somente mais justa para todos, encorajando a contribuição para o todo. Também não é a abolição do estado social pois esta ideia poderia ser resumida na seguinte frase: todos beneficiam, mas a decisão está nas mãos dos que contribuem.
Claro que, na verdade, considero isto uma proposta irrealista pois nunca seria tolerada pela classe política, sobretudo a "esquerda", que é quem mais beneficia com o status quo. Mas que é mais justa é. E provavelmente mais eficaz também.


De Tomás Belchior a 17 de Maio de 2011 às 15:15
Henrique,

Só para complementar a resposta do Francisco com alguns apontamentos gostaria de lhe dizer o seguinte:

- Quando fala em "a janela de oportunidade para levar a cabo esse processo de convencimento e ingestão de sapos", em bom rigor, essa janela de oportunidade não existe porque esse processo tem de ser um processo contínuo. Quando fazemos pausas, acabamos onde estamos agora.

- Em relação a como inverter esta tendência, só lhe posso dizer que, ao contrário do que parece, neste país está (quase) tudo por fazer, por tentar. Estamos há 36 anos a andar ao sabor da corrente e talvez tenha chegado o momento de, pelo menos, fazermos uma coisa simples: sermos exigentes com quem recebe o nosso voto em vez de escolhermos por inércia. Ninguém trabalha se não precisar de o fazer.






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