Rua Direita
Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
Filipe Diaz

Desde ontem que são notícia as declarações de Angela Merkel sobre as férias e a idade de reforma nos países periféricos (denominação que denota alguma sobranceria pacóvia), que prontamente mereceram a indignação dos sindicatos e de alguns políticos, e o aproveitamento das associações patronais.

 

Na senda desta polémica, o Jornal de Negócios vem hoje desmontar a validade do reparo da Chanceler alemã, demonstrando com dados externos que os gregos, portugueses e espanhois são os que mais horas trabalham, que os gregos e os portugueses estão entre os que menos dias de férias gozam (feriados e pontes à parte, calculo eu), e que os portugueses e espanhóis são já dos que mais tarde se reformam.

 

Ora, a ser verdade a comparação entre a realidade dos diversos países e sabendo nós que estamos na cauda da produtividade europeia, fico ainda mais preocupado... se estamos já entre os que mais horas por semana trabalhamos, entre os que menos férias gozam e entre os que mais tarde se reformam, algo vai certamente mal no modelo económico, laboral e de governação deste falido Portugal.

 

Sem querer repetir os incessantes apelos que se ouvem nos últimos meses (anos), é urgente alterar os paradigmas do funcionamento da nossa economia e do mercado de trabalho nacional. Aliás, se deixarmos passar o momento actual sem a coragem para o fazermos, temo que este país à beira mar plantado, acabe enterrado e condenado ao eterno fogo da "cauda da europa". 

Publicado Por Filipe Diaz em 19/5/11
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8 comentários:
De Vasco a 19 de Maio de 2011 às 09:44
Basta distribuir melhor a riqueza; quantas mais pessoas mais dinheiro tiverem melhor será a economia a todos os níveis (sobretudo a nível de empreendedorismo).


De Filipe Diaz a 19 de Maio de 2011 às 10:33
Caro Vasco, embora não seja economista, não creio que a receita para um maior empreendedorismo e para o aumento da produtividade passe apenas por uma pura e cega distribuição da riqueza.

Aliás, a distribuição equitativa da riqueza e o aumento dos rendimentos devem ser o resultado de um sistema que promova a meritocracia (reconhecendo aqueles que melhor trabalham) e a iniciativa privada (nomeadamente a nível das micro e pequenas empresas, incentivando o micro-crédito e as linhas de financiamento a PMEs), e garanta que a cada um é dado aquilo que merece.

A serem verdade os números e comparações avançadas pelo Jornal de Negócios, fica (mais uma vez) provado que quantidade não é qualidade... passar muitas horas no local de trabalho não significa que se produza mais, nem muito menos que se produza melhor!


De Henrique Nunes a 19 de Maio de 2011 às 13:25
"(...)fica (mais uma vez) provado que quantidade não é qualidade... passar muitas horas no local de trabalho não significa que se produza mais, nem muito menos que se produza melhor!"


Naturalmente que não. Aliás, em Portugal practica-se algo que é o manifesto sintoma de quão equivocados estamos em relação a este assunto.


Todos os meus amigos que estão no primeiro ou segundo emprego, sobretudo em grandes consultoras, trabalham bem mais do que oito horas diárias. De facto, eles dizem-me que é mal-visto cumprir o horário de trabalho à risca. 

Ora a confusão é esta: Os managers (de alto a baixo) chico-espertos acham que é boa ideia fazer com que os trabalhadores fiquem mais tempo que o estipulado, na ilusão que assim trabalharão mais, pelo mesmo pagamento. 
Só que, numa vigarice há sempre dois vigaristas - o que vigariza e o que é vigarizado. E os managers, na sua chico-espertice esquecem-se que os trabalhadores rapidamente se tornam hábeis a fingir que trabalham. Porque há-de o trabalhador manter a sua produtividade se sabe que vai ter que ficar mais tempo e não vai ser recompensado por isso? Nos países produtivos, é raro encontrar empresas que permitam aos colaboradores trabalhar para além do horário estipulado. Isto incentiva a que as pessoas cumpram as suas obrigações a tempo e horas, porque sabem que se o não fizerem hoje, terão de o fazer amanhã. Não há cá ficar mais tempo depois do horário. Isso é receita certa para a procrastinação. 
E só assim se explica que tenhamos muitas horas de trabalho e pouca produtividade. 


Mais um exemplo da pobreza de espírito que caracteriza a nossa sociedade...


De Zélia Pinheiro a 19 de Maio de 2011 às 09:44
Também acho que isso só é motivo para preocupação e não para qualquer arrufo de orgulho patriótico ferido.


De Marcos Teotónio Pereira a 19 de Maio de 2011 às 09:55
Partilho a perplexidade. Gostava de ver uma explicação cabal sobre a nossa pouca produtividade.


De António Parente a 19 de Maio de 2011 às 12:16
Há uns tempos li um artigo muito interessante. Um empresário dum fábrica de calçado tinha um problema: muitas encomendas para diferentes modelos de sapatos mas os seus trabalhadores só conseguiam produzir um modelo de cada vez.

O que fez ele? Gritou contra as leis laborais e pediu uma reforma estrutural? Pediu a redução dos dias de férias, da TSU, do custo das horas extraordinárias? Chamou preguiçosos aos trabalhadores, fez um despedimento colectivo e contratou novos?

Nada disso. Fez uma coisa mais simples. Contactou um centro de investigação, apresentou o seu problema e pediu para lhe encontrarem uma solução para que a linha de produção conseguisse trabalhar mais do que um modelo de sapato em simultâneo. Encontraram-lhe uma saída para o problema, implementaram-no e a fábrica passou a satisfazer mais encomendas com o mesmo número de trabalhadores, isto é, aumentou a produtividade. Todos ganharam. Esta é a maneira certa para resolver os problemas da produtividade.

Já alguém procurou saber por que é que a fábrica da
Auto Europa é uma das mais eficientes do grupo VW, tem paz social e até aumenta os salários dos trabalhadores em tempos de crise? Porque é que aquelas condições - leis laborais, TSU, etc - que tanto parecem afectar a competitividade das empresas nacionais não afectam a Auto Europa? Alguém pensou nisso?


De Filipe Diaz a 19 de Maio de 2011 às 13:56

Caro António, ainda bem que refere a Autoeuropa, pois assim aproveito para citar dois comunicados oficiais da empresa:


Junho de 2010: "as ferramentas de flexibilidade laboral existentes na Volkswagen Autoeuropa foram concebidas exactamente para dar resposta a situações desta natureza, permitindo uma reacção eficaz às flutuações do mercado, sem comprometer a nossa competitividade. Continuarão a ser aplicadas e cada vez mais se confirma a importância de as manter e reforçar."


Novembro de 2010: “o acordo (laboral) é mais uma demonstração das vantagens do trabalho conjunto que a administração da empresa e os colaboradores fazem, no sentido de garantir a estabilidade do emprego e a competitividade da empresa. Precisamos, cada vez mais, de dar continuidade e mesmo de reforçar os mecanismos de flexibilidade que têm sido essenciais, nos últimos anos, para dar a esta fábrica um futuro sustentável.


 


Parece-me assim que a Autoeuropa é o melhor exemplo de que a produtividade e a paz social se podem basear na flexibilidade, em negociações e concessões de ambas as partes, e não na rigidez da legislação laboral e em direitos adquiridos.


 


No que concerne ao exemplo da fábrica de sapatos que relata, só posso aplaudir. É de empreendedorismo, de inovação e iniciativa privada de que necessitamos! Eu nunca escrevi (nem disse) que a flexibilização das nossas leis laborais é o único remédio para todos os nossos males e achaques, parece-me certamente fazer parte da solução, mas não constitui em si mesmo o segredo do nosso possível futuro sucesso.



De António Parente a 19 de Maio de 2011 às 14:10
Já agora, o link da noticia que referi está aqui:

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=455739 (http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=455739)
Não a tinha encontrado quando escrevi o outro comentário e como podia existir uma falha de memória da minha parte resolvi pesquisá-lo.


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