Adolfo Mesquita Nunes
O RAF pergunta-nos n'O Insurgente o que é que temos a dizer da afirmação de Paulo Portas segundo a qual o CDS está à esquerda do PSD em questões sociais. Penso que responderei por todos se disser que Paulo Portas escolheu uma má frase para dizer uma verdade insofismável: que a esquerda não tem o monopólio das questões sociais, nomeadamente daquelas que se destinam a garantir uma rede de segurança para os que mais precisam.
E não me importo de repetir, que aqui pelo Rua Direita não temos problemas em criticar o que nos parece menos bom: a frase escolhida pelo Presidente do CDS foi má. Mas antes uma má frase a revelar uma boa política do que más políticas escondidas atrás de boas frases.
Mas já agora, quanto a dúvidas existenciais sobre ser de esquerda ou de direita, parece-me que o PSD tem muito mais a explicar do que o CDS.
De António Parente a 19 de Maio de 2011 às 11:01
Por acaso, discordo. A frase escolhida pelo presidente do CDS foi muito boa. Não há que ter complexos de esquerda em questões sociais. Uma das mais-valias do CDS é ter uma componente de democracia-cristã que equilibra o mix de políticas do manifesto eleitoral. O "Estado social" não pode ser só aquilo que o PS, o PCP e o BE defendem. A mais-valia que o CDS pode trazer é ter uma política social alternativa mais eficiente e controlada do ponto de vista financeiro e justa do ponto de vista social. Sem complexos de direita ou de esquerda.
Ontem conversei com uma pessoa que sempre votou CDS e que ficou admirada por eu lhe dizer que provavelmente votarei CDS nas próximas eleições. Para esse pessoa, quem deixasse de votar PS ou votaria PSD ou BE. Expliquei-lhe que essas transferências de voto não são automáticas. Muitos eleitores PS nunca votarão BE ou PCP porque o PS é a sua última fronteira à esquerda. Votar no PSD é votar numa versão gémea (em termos de políticas) do PS. É aqui que o CDS pode fazer a diferença, sendo a alternativa a quem deixa de votar no PS e não quer votar PSD (também existe o MEP, acrescente-se).
Para isso, o CDS tem de ir ao encontro desses eleitores se quer alargar o seu espaço eleitoral. Não precisa de abdicar da sua matriz e identidade de direita mas tem de perceber que quem vota PS não quer o "socialismo" mas sim uma sociedade onde exista solidariedade com os mais pobres e justiça social.
Para votar CDS não é necessário estar 100% de acordo com o seu manifesto eleitoral. Se eu quiser um partido em que esteja 100% de acordo com as suas políticas então fundo-o e assumo a liderança. O que eu pretendo é um partido com que me possa identificar e que pense que pode ter a mesma sensibilidade que eu penso ter em termos de políticas sociais. O CDS tem a possibilidade de contribuir para acabarem os preconceitos comtra a direita até porque muita gente que vota PS descobre, a certa altura da sua vida, que é de direita mas de uma direita com preocupações sociais.
Caro António, eu não disse que a frase não era politicamente hábil, precisamente no sentido de cativar o voto. Apenas considero que ela é uma má frase na medida em que tende a perpetuar a ideia de que quem tem preocupações sociais é de esquerda.
Um abraço
De Henrique Nunes a 19 de Maio de 2011 às 13:12
Mas, qual é a direita sem preocupações sociais?
Até o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão tinham no cerne das suas filosofias o bem-estar social.
A esquerda sempre se centrou na luta de classes e na agitação, e não nas preocupações sobre o bem estar-social.
A verdade é que as preocupações sociais advém directamente da matriz cultural cristã, que se centra nos princípios do serviço e da caridade. A esquerda soube muito bem recauchutar-se e raptar esse tema tratando-o como se fosse seu feudo exclusivo. Mas, na verdade, é um bocado difícil encontrar um país no mundo que exemplifique a concretização desse recente fervor social da esquerda.
Como aliás Jerónimo de Sousa tão bem ilustrou ao não conseguir responder à solicitação de Portas: "Dê-me um exemplo de um país, no Mundo, onde se apliquem as suas ideias, e as pessoas sejam livres, prósperas e felizes."
Henrique,
A esquerda só tem preocupações sociais se puder também usar o poder do Estado para dirigir a vida das pessoas. Por isso é que para eles é mais importante a questão público/privado do que a questão do que realmente funciona para melhorar a vida dos outros.
É vergonhoso e daria um bom tema para o debate de logo com o Louçã...
De Henrique Nunes a 19 de Maio de 2011 às 14:03
Caro Tomás,
em relação à questão do público/privado, penso que os motivos deles são um pouco mais pragmáticos do que esses.
A verdade é que, hoje em dia, qualquer pessoa com bom-senso, tendo hipótese de assegurar a sua reforma ou no público ou no privado, escolheria sempre o privado, pois saberia bem que caso optasse pelo público, se arriscaria a não ter reforma quando dela precisasse.
Isto resultaria num sistema público apenas com beneficiários e sem contribuintes. E como a esquerda vive mais dos votos dos beneficiários e menos dos dos contribuintes, ver-se-ia a braços com o problema de como sustentar os beneficiários sem as contribuições dos contribuintes. Que rapidamente resolveria, como sempre, com apelos à agitação e revolta contra os "ricos" e os "burgueses" (de 1500€ mensais...).
Sempre duvidei muito que os fascistas e os nazis fossem de direita, mais isso é outro debate. Duvido igualmente que na base da defesa das políticas assistencialistas tenha que estar sempre uma noção caritativo-religiosa. Na minha ótica, trata-se de uma decisão racional e lógica o estado assegurar um mínimo de bem estar social para os seus membros - algo que promova paz social e igualdade de oportunidades. Para baixo de isso, ninguém cai. A partir daí, vale o mérito e o esforço de cada um. A esquerda portuguesa gosta de fazer disto um cavalo de batalha porque a direita nunca soube racionalizar o seu discurso sobre o estado social. Vão ver o que diz a Thatcher sobre isso.
De Henrique Nunes a 19 de Maio de 2011 às 14:59
"Duvido igualmente que na base da defesa das políticas assistencialistas tenha que estar sempre uma noção caritativo-religiosa."
Não tem que estar, mas o facto é que esteve e está. Para as pessoas que atingiram o fundo, na esmagadora maioria das vezes, o únicos que lá estão disponíveis para oferecer uma mão amiga e uma ajuda, são as organizações de caridade associadas à Igreja, ou de cariz religioso. Não é a assistência social.
O Estado faria melhor em apoiar essas organizações, que já estão implementadas no terreno, sabem racionalizar os parcos recursos que têm disponíveis e são muito menos susceptíveis de serem enganadas por falsos pobres e outros inúteis, do que gastar milhões e milhões numa assistência social de eficiência, no mínimo, duvidosa.
"o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão" eram doutrinas de esquerda -- anticapitalistas, estatistas, anti-individualistas -- em suma, socialistas.
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