Rua Direita
Quinta-feira, 26 de Maio de 2011
Luís Pedro Mateus

O título parece assumir um poder e uma força merecedora da maior eloquência filosófica na abordagem à problemática.

 

Aviso já que defraudarei expectativas.

 

Limitar-me-ei a constatar essa evidência categoricamente afirmada no título do post.

 

O facto, a evidência que habita, em surdina, o senso comum do mais comum dos cidadãos, é que as palavras “verdade” e “política” são antónimos. E porquê? Porque razão a política não se parece coadunar com a verdade, no entender dos cidadãos?

 

A resposta é simples. Os políticos, pelas acções, pelos discursos, têm defraudado constantemente as expectativas da população. Uns mais que outros, outros com mais habilidade do que uns.

 

Mas a norma é que, normalmente, a “verdade” política serve uma agenda e é normalmente um engodo, um sofisma: uma meia verdade que esconde os factos que podem eles próprios, em parte e se usados como meia verdade, rebater uma parte dessa “verdade”.

 

São as "verdades" circunstanciais - as mais passíveis de serem tratadas na esfera de um maior pragmatismo e alguma relatividade - que catalizam todo este processo de praxis política que é a mais familiar ao cidadão. São os dados que, cirurgicamente, são escolhidos em detrimento de outros que poderiam fragilizar a conclusão ensaiada pelo memorizado guião. São as falsidades, puras e cruas que, repetidas até à exaustão e inseridas nesse mesmo guião, fazem a conclusão parecer mais verosímil e credível.

 

As verdades ideológicas não são tão fáceis de explorar neste tipo de exercício de relativização. Além de que estas, por norma, são abafadas da generalidade do debate político pela sua ineficácia em "atingir" a maioria do público. A "verdade" circunstancial, a verdade relativa, se bem usada, é mil vezes mais eficaz que mil verdades ideológicas porque mais facilmente apreensível e decorada.

 

Do uso e abuso desta praxis, os partidos acabam-se isolando em si próprios ao invés de dialogarem e debaterem uma Ideia de país, honestamente, como duas pessoas civilizadas o fariam no dia-a-dia. Cai-se recorrentemente nesse ciclo que é o “jogo” - daqueles em que todos perdem - da política.

 

A gravidade da situação, por se tornar senso comum que “eles não fazem nada” e que “são todos iguais”, é que esta ameaça caminhar numa direcção explosiva – uma total descrença no sistema democrático, já bem patente nos níveis de abstenção - que acarreta uma factura que a História ainda hoje paga.

 

Cabe à sociedade civil consciente e informada, mobilizar-se e pressionar por mudança. Falhados os movimentos de cidadãos tornados partidos, a mudança passará, quer-me parecer, pelos partidos políticos.

 

Enquanto a sociedade civil capaz e dinamizadora, ainda a maioria silenciosa, não se aperceber que a solução está em aproximar-se dos partidos para os mudar e não em afastar-se e deixá-los decair nos seus vícios, esta situação de divórcio entre cidadãos e política dificilmente será invertida.

 

Parece-me, numa análise nada relativista, que o CDS tem condições excepcionais para poder fazer parte deste modelo mais "aberto" e mais verdadeiro de democracia. Para além de ser um partido com um grande enraizamento ideológico e menos dado a deambulações relativistas reféns de tempo e espaço, é um partido desprendido da maior parte dos vícios que fazem os grandes partidos do poder isolarem-se do país real: o país dos abstencionistas, o país dos que votam em branco ou nulo, o país daqueles que votam a contragosto, em exercício negativo, para expulsar governante X.

 

Por esses grandes partidos do poder habitarem a lógica da política como ciência de obter o poder ou ciência de manter o poder, o CDS tem condições mais favoráveis para encetar uma campanha, um debate, um programa, um caminho mais esclarecido.

A distância dos vícios, o enraizamento ideológico que alicerça o sonho de servir e de fazer diferente e melhor aproximam o CDS da visão aristotélica da política como práctica do bem comum e diferem-no da mera definição maquiavélica da política como ciência do Poder. Imprimem no discurso e no percurso uma noção de que a Ética deve ser um desdobramento natural da Política e, mesmo que com deslizes ocasionais (que têm de fazer juz à máxima de que nada é perfeito) tal noção é omnipresente no enraizamento ideológico do CDS.

 

Essa mesma diferença, não duvidemos, é um charme irresistível que tem marcado a diferença numa campanha embriagada de "verdades" para sempre condenadas a serem implacavelmente vergadas à tentação de relativismos.

 

É por aqui que o CDS tem de ir. Não poderá ser de outra maneira.

Publicado Por Luís Pedro Mateus em 26/5/11
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