Rua Direita
Quarta-feira, 1 de Junho de 2011
Francisco Meireles

As empresas de sondagens já perceberam que não podem continuar o jogo dos dois partidos do centrão, e em particular de Sócrates, pelo que começaram já a desfazer o mito do "empate técnico" artificialmente alimentado nas últimas semanas. Todas elas irão, de hoje até 6ª feira (julgo que ainda se mantém o período de reflexão, durante o qual não pode haver sondagens) continuar a "alargar" a margem entre o PS e o PSD; provavelmente mais no sentido da diminuição do resultado do PS do que no do aumento da votação no PSD.

 

Por conseguinte, o País vai começar a respirar de alívio à medida que se for instalando a confiança de que a governação socialista deste Primeiro Ministro chegou ao fim.

 

O risco maior que corremos é o de nos deixarmos embebedar pela vitória que isso significa e assim esquecermos, nem que seja momentaneamente, as dificuldades que aí se aproximam.

 

A formação de governo, mesmo que seja só entre o PSD e o CDS, será certamente difícil, mesmo que não haja pressão, presidencial ou outra, para incluir no Governo um PS pós-Sócrates. A fome de poder no PSD é muita e a qualidade escassa. Por outro lado, se se vier a confirmar o excelente resultado que se antecipa para o CDS, Paulo Portas quererá garantir que o novo Governo tem melhores condições para governar, isto é para aplicar o programa do triunvirato, do que as que obteve na formação de governo com Durão Barroso - não esqueçamos que Portas tem repetido à saciedade que não voltaria para um governo com apenas 8% dos votos; presumivelmente porque isso não lhe deu influencia suficiente na governação.

 

O CDS tem hoje uma equipa preparada para o exercício do poder, com pensamento próprio em todas as áreas chave da governação. Tem, por isso mesmo, mais responsabilidade e melhores condições para negociar. O que significa que a negociação será necessariamente mais dura.

 

Mas o verdadeiro desafio começa apenas depois de formado o Governo.

 

 

Cumprir os compromissos assumidos pelo País vai implicar sacrifícios, já todos o sabemos.

 

Mas vai sobretudo implicar um esforço governativo que está muito para além do que nos fomos habituando pela prática das últimas décadas.

 

Primeiro, porque serão necessárias escolhas difíceis. Muito difíceis.

 

Segundo, porque essas escolhas terão de ser muito bem preparadas e melhor explicadas. Mesmo assim, poderão provocar um grande aumento da contestação social. E o Governo terá de estar preparado e coeso para o aguentar.

 

Terceiro e porventura o mais importante. Porque será preciso gerir para governar bem. Gerir, entenda-se, a máquina do Estado. Sublinhe-se que essa não tem sido a preocupação dos governantes portugueses, de há muito tempo a esta parte. Na verdade, não basta elaborar boas leis orgânicas que reduzam o número de chefias ou simplifiquem as estruturas dos ministérios e outros organismos do Estado, embora se possa começar por aí.

É preciso motivar os dirigentes, novos ou velhos e os trabalhadores, para a execução das prioridades governamentais.

Isso implica um enorme esforço de compreensão das tarefas desempenhadas e cometidas a cada departamento do Estado.

Implica fomentar e exigir melhor e maior coordenação interdepartamental.

Implica dotar os departamentos dos instrumentos necessários à boa execução, sobretudo quando estiverem em causa reestruturações departamentais.

Implica, mais do que provavelmente, simplificar legislação e até desregulamentar muita burocracia excessiva.

 

Tome-se um exemplo: o CDS propõe que o futuro MNE absorva a AICEP, para o dotar de maiores responsabilidades na promoção externa do País, das suas Empresas e dos seus Produtos. No papel, é fácil de fazer; por exemplo tornando a AICEP uma direcção-geral do novo MNE ou integrando o AICEP numa qualquer DG pré-existente.

Fazer funcionar essa alteração, por outro lado, levanta inúmeras questões incómodas, tanto para os governantes envolvidos, como para os dirigentes das novas estruturas.

Desde logo, saber onde se instalam fisicamente a nova estrutura fusionada; nas instalações da AICEP ou do MNE? Todas num lado, algumas num lado e outras noutro?

Depois, como se transmitem e interligam os conhecimentos, práticas e mais valias de cada estrutura? Como se motivam os trabalhadores e os dirigentes para os novos objectivos? Como se escolhem os novos objectivos? Como se formam os dirigentes integrados, para recorrerem e utilizarem as mais valias dos dois departamentos originais? Como se reduzem os custos das estruturas (sim, porque juntar um escritório da AICEP com uma Embaixada pode implicar custos de cessação dos contratos pré-existentes, dos novos espaços que sejam necessários, etc.etc.)?

 

Todas estas decisões são decisões de "gestão". Habitualmente os nossos políticos deixam essa gestão aos "aparelhos". Isso não poderá continuar, se se quiser alcançar resultados significativos. É uma verdadeira mudança cultural.

 

Como qualquer iniciado em gestão sabe, as estruturas e infra-estruturas tem de estar adaptadas às tarefas e objectivos que visam desempenhar. Sem isso não se conseguem bons resultados, por muito boas que sejam as pessoas que integram as estruturas ou os seus dirigentes - não digo que a qualidade dos recursos humanos não interessa, bem pelo contrário, o que afirmo é que não é suficiente por si só, muito embora possa servir para disfarçar, temporariamente, fraquezas.

 

A questão é esta: Portugal vai ter de fazer sacrifícios para cumprir as suas obrigações, sem ter a certeza de que isso será suficiente para evitar males maiores. Para o poder conseguir, necessitará de várias coisas. Uma certeza que tenho é que precisará de aumentar em muito a eficiência do aparelho do Estado, se quiser criar margem de manobra para as empresas, e a Economia, crescerem. Sem isso, não terá hipóteses de se libertar do pesado fardo da dívida (que além do mais, irá crescer mais 21,5 mil milhões, pelo menos, se se cumprir o acordo com o triunvirato).

 

E isso não se consegue sem políticos que se empenhem nos aspectos de gestão da máquina pública.

 

 

Publicado Por Francisco Meireles em 1/6/11
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1 comentário:
De Bernardo Campos Pereira a 1 de Junho de 2011 às 14:59
Avisos à navegação bem acertados! 


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