Rua Direita
Sábado, 7 de Maio de 2011
Francisco Mendes da Silva

Pelos vistos, o PSD já desistiu de disputar as eleições ao centro, contra o PS, e partiu para a tentativa de conquista dos votos do CDS, aos quais acha que tem um direito divino. 

 

Percebe-se isso de duas notícias deste fim-de-semana.

 

1. Em primeiro lugar, a notícia da indisponibilidade de Passos Coelho para governar com o PS, publicamente declarada pelo próprio. O que Passos quer, obviamente, é forçar a ideia de que a única solução de governo, caso o PS vença as eleições, é uma coligação de Sócrates com o CDS. Havendo essa possibilidade, ainda que remota ou meramente virtual, os jornalistas - acha Passos - começarão a insistir com Paulo Portas para definir uma posição quanto ao assunto, até que se instale na campanha eleitoral a narrativa propícia. Se essa narrativa for "Portas fará arranjinho com Sócrates", Passos espera que muitos dos votos do CDS passem para o PSD.

 

Mas claro que esta posição de Passos Coelho pode muito bem ser um foguete que lhe estoire nas mãos, porque a situação não está para infantilidades e os portugueses (e os media) não estão para aturar irredutibilidades deste tipo. De momento, a única posição prudente e sensata é não projectar cenários, porque, como em nenhuma outra eleição, a formação do governo, da maioria que o apoiará e a forma como esse apoio será construído resultarão da vontade popular manifestada nas urnas. Passos mostra falta de humildade democrática e de espírito de liderança. Como bem sintetizou o Pedro Marques Lopes (um desiludido do passismo), "um líder nunca, mas nunca mesmo, comenta eventuais cenários futuros".

 

2. Em segundo lugar, e por falar em falta de humildade democrática, vejamos as declarações de Miguel Veiga ao Expresso de hoje, sobre Paulo Portas: "ouvi-lo dizer que quer ser primeiro-ministro é como se eu dissesse que queria ser Xá da Pérsia"; é "de um atrevimento inaudito"; é "pôr-se em bicos de pés"; são declarações "censuráveis e devem ser castigadas na praça pública". 

 

Como assim? Desde quando é que, em eleições legislativas democráticas, algum partido tem maior legitimidade do que qualquer outro para achar, antes do acto eleitoral, que poderá vir a indicar um primeiro-ministro? É preciso que o CDS e os seus apoiantes denunciem esta posição como inconcebível, até porque ela não é apenas a posição de um militante. Vê-se pelo conteúdo da notícia (Miguel Veiga não falou à margem de nenhum evento, mas directa e propositadamente sobre o assunto "Portas a PM") que a direcção do PSD "plantou" as declarações (e o Expresso, porque elas têm relevância pública, aceitou - e bem - publicá-las), através de um excêntrico militante "histórico" do Porto (apesar de 90% dos militantes do PSD não fazerem a mínima ideia de quem seja esse seu patusco companheiro e já ninguém se lembrar do que é que Veiga fez para entrar para a história do partido - se é que fez alguma coisa).

 

Quando se diz que o CDS não é - e não deve ser - um partido "subalterno", convém lembrar que essa subalternidade não é só institucional, programática e estratégica. Por vezes, em alguns militantes e simpatizantes do CDS, permanece uma certa subalternidade emocional, como se o PSD fosse um irmão mais velho a que só queremos bem. Pois em mim essa dependência não existe. Por muito que eu prefira que o PSD vença estas eleições, a fim de enxotarmos o PS, há uma coisa que me apazigua os dias: saber que, se o contrário acontecer, terei ainda assim, como motivo de festejo, a derrota desta gente, a quem sobra em soberba o que falta em competência. 

Publicado Por Francisco Mendes da Silva em 7/5/11
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2 comentários:
De Hugo Correia a 8 de Maio de 2011 às 00:29
Bom texto.
Queria aproveitar para louvar o vosso empenho, Rua Direita, para um CDS ainda mais forte. Acredito sinceramente que sim. Crescerá, e muito. Será a 1ª vez que terá o meu voto. Devo dizer que não tenho qualquer ligação partidária, apenas, e não é pouco, uma profunda admiração pela pessoa e político Pedro Santana Lopes, que muito compreensivelmente votará no seu partido. Desta vez, por já estar cansado da inconsistência daquele partido, não posso ir na mesma linha do "Mestre". Mesmo assim penso que o CDS crescerá mais pelo lado do PS do que propriamente do PSD. Desta vez voto CDS.


De Manuel Salema Garção a 8 de Maio de 2011 às 18:06
Caro Hugo Correia, 


terá o meu, o seu e o de muita gente. Acaba por ser perfeitamente normal a confiança dos portugueses no no CDS. Se não vejamos... PSD apresenta soluções? não nada, julgo que o programa (que ainda não li) é fraquinho e não está enquadrado com aquela que é a nossa realidade (pelo que li e ouvi). PS não é solução é parte do problema. Por isso só mesmo o CDS! um abraço


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