Rua Direita
Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
Tomás Belchior

Ainda a propósito deste bota-abaixismo, o Primeiro-Ministro agora veio dizer que afinal o plano que ele tinha engendrado em 2000-2001 com o Mário Lino para privatizar a Águas de Portugal não era uma privatização, era uma "parceria estratégica". Uma parceria estratégica que "previa a entrada da companhia inglesa Thames Water no capital da AdP, através da EDP, que já era então uma companhia privada, e contemplava a futura dispersão de uma parte do capital em bolsa."

 

A melhor parte da notícia é a prestação do saudoso Mário Lino: "Confrontado com uma sua declaração à revista Visão em que afirmou, em Dezembro de 2001, que “já se está a privatizar “ a AdP, o ex-ministro das Obras Públicas do primeiro Governo de José Sócrates respondeu: “Era privatização porque era a entrada de um ente de direito privado, com capitais privados, no capital da Águas de Portugal. Foi no quadro de uma aliança estratégica e era uma participação de 10 por cento.”

 

Ou seja, para ver se isto fica claro, não era uma privatização porque era uma parceria estratégica. Mas era uma privatização porque era a entrada de empresas privadas na Águas de Portugal.

 

Como diria o Primeiro-Ministro: "toda a gente percebeu o que eu quis dizer quando disse isso".

 

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Publicado Por Tomás Belchior em 19/5/11
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De Vasco a 19 de Maio de 2011 às 15:19
Privatizar a Água é um grande disparate. Para além de não sabermos o dia de amanhã no que toca esse recurso estratégico, como se articulariam os interesses dos privados com a gestão de barragens, por exemplo - e como se articulariam políticas da água com políticas agrícolas à escala nacional (não por acaso a menina dos olhos do CDS)?


De Tomás Belchior a 19 de Maio de 2011 às 15:33
Vasco,

Não estamos a falar da privatização da água. Estamos a falar da privatização (ou concessão) da gestão dos recursos hídricos.

Uma coisa é a necessidade de intervenção pública para o lançamento de projectos de infraestruturas, outra é a gestão pública desses projectos.


De Vasco a 19 de Maio de 2011 às 16:29
Usei uma expressão vulgar, mas "gestão dos recursos hídricos" também me parece um eufemismo porque privatizar essa gestão é, no fundo, fazer com que o objectivo principal dessa gestão seja o lucro e que portanto as decisões mais importantes não serão estratégicas mas de tesouraria. E então se Ricardo Salgado pegar na "coisa" está-se mesmo a ver que em breve teremos uma barragem em cada vale. Paga por nós, construída por Jorge Coelho, para privados venderem electricidade e, por acaso, até deitarem umas bolinhas de cloro nos depósitos para dar de beber à manada. Se houver uma seca, não há problema, triplica-se logo o preço da água (que não torna a descer quando chove...). É isto que querem? É isto que vai acontecer caso esta história vá para a frente.


De Tomás Belchior a 19 de Maio de 2011 às 17:01
Vasco,

Substitua água por comida ou por roupa e o Ricardo Salgado pelo Soares dos Santos ou pelo Belmiro e diga-me qual é a diferença. É o lucro que lhe permite ter comida e roupa abundante e preços para todos os gostos.

Uma coisa são as infraestruturas. Outra coisa é a produção/distribuição/gestão.


De Vasco a 19 de Maio de 2011 às 22:11
Tudo ok. Eu não sou contra o lucro. Apenas contra a gestão privada de um recurso natural (finito), mesmo através de concessões, porque é crucial que um Estado detenha margem de manobra sobre os seus recursos base sem estar sujeito a contratos ou interesses privados. Para dar um exemplo, numa situação de crise, como contrapartida de um agravamento fiscal, o Estado pode decidir não aumentar o preço da água, ou mesmo baixá-la, para por exemplo aumentar a competitividade dos sectores primário e secundário. Ora, com gestão privada, isso seria muito mais complicado, senão impossível. E é por isso que não posso substituir "água" por "roupa" ou "alimentos" neste argumento. Não me parece bem a mesma coisa.


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