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Rua Direita

Rua Direita

10
Mai11

Lá no manicómio era assim que fazíamos

Francisco Mendes da Silva

O Rui Castro já disse quase tudo o que há a dizer sobre a léria dos abrantes a que até o grande maradona aderiu - tal é o seu ódio a Paulo Portas. Mas a coisa merece outro comentário. Sócrates, naquela sua maneira provinciana de quem está sempre a justificar-se com o que se faz "lá fora", acha que são muito bons os exemplos de que falou, quando referiu outros países onde a dívida pública disparou. Dos quatro que superaram Portugal nesse aspecto (Irlanda, Grécia, Reino Unido e Letónia) - o Rui já o sublinhou -, dois foram intervencionados (Irlanda e Grécia). Quanto aos restantes, desconheço o caso da Letónia mas gostaria de lembrar que, até há um ano atrás, o Reino Unido teve à frente um louco que saiu do mesmo manicómio de onde saiu Sócrates. E só não será resgatado porque, entre outras razões, não faz parte da Zona Euro e está agora, com o novo governo, a implementar um plano duríssimo de austeridade por iniciativa própria (sem ser imposto de fora). Até 2010, o Reino Unido não foi exemplo para ninguém. Não nos esqueçamos o quanto Gordon Brown foi saudado pelos Sócrates desta vida como o génio que descobriu a forma de sairmos da crise. E qual foi esse caminho desbravado por Brown? Dívida sobre dívida sobre dívida.

10
Mai11

Ler os outros

Francisco Mendes da Silva

Pedro Correia, no Albergue Espanhol:

 

Pela primeira vez, que eu me lembre, José Sócrates perdeu um debate eleitoral. Foi esta noite, nos estúdios da TVI, perante um Paulo Portas em boa forma que lhe disse o essencial, olhos nos olhos: este primeiro-ministro "vive na estratosfera". Vive num país só dele, que nega a realidade quotidiana dos portugueses: a dívida pública duplicou em seis anos, há hoje quase 700 mil pessoas sem emprego, o "estado social" tornou-se uma figura de retórica, Portugal viu-se forçado a estender a mão à caridade internacional.

Incapaz de reconhecer um erro, dando continuamente o dito por não dito, sublinhando mais de uma vez que o Governo"deu o seu melhor", Sócrates começou o debate com o ar mais cordato deste mundo: "abertura" e "diálogo" foram as primeiras palavras-chaves do seu discurso. "Portugal precisa de um governo forte", declarou o líder socialista. Nem parecia o mesmo que foi incapaz de esboçar uma coligação pós-eleitoral quando venceu as legislativas de 2009 muito longe da confortável maioria absoluta de que dispôs nos quatro anos anteriores.

Sócrates nunca até hoje tinha ouvido em directo, na televisão, algumas das frases com que Portas o brindou neste frente-a-frente bem moderado por Judite Sousa. Frases que revelam uma realidade elementar: o líder socialista, chefe do Governo desde Março de 2005, "é o político responsável pelo estado a que chegámos". Mais: "Este primeiro-ministro vai perder as eleições porque as pessoas vão votar com os bolsos quase vazios."

Sócrates não tardou a perder o ar de bonomia: a natureza de "animal feroz" acaba sempre por vir à superfície neste homem incapaz de estabelecer pontes com adversários. E com isto estragou irremediavelmente a imagem de indivíduo dialogante que levara para este debate. Apertado por Portas, não resistiu a um número de fácil demagogia televisiva: exibiu uma pasta vazia dizendo que aquele era o programa eleitoral do CDS, que "ainda não existe". Com isto irritou o líder democrata-cristão e marcou certamente alguns pontos junto dos telespectadores. Mas também confirmou que não está minimamente vocacionado para o diálogo político. Sendo aliás ele o campeão dos programas eleitorais por cumprir, esta deveria ser a última das suas opções argumentativas. Lembram-se ainda daquele socialista que prometia criar 150 mil empregos, inaugurar as linhas ferroviárias de alta velocidade e pôr Portugal a crescer 3% ao ano?

09
Mai11

Depois não se queixem

Francisco Mendes da Silva

 

É muito triste, para todos os que anseiam por uma derrota de Sócrates e do PS, ver o PSD - que se assume como o principal challenger do poder - desistir de ser a locomotiva do movimento de mudança e dedicar a sua estratégia e o seu tempo a tentar empurrar para baixo o partido que vai em terceiro na corrida e que com ele partilha os objectivos da mesma. Temo que, com tanta preocupação com o CDS, ainda deixe fugir o PS, para nunca mais o apanhar.

09
Mai11

Maddoff e Sócrates

Francisco Mendes da Silva

(José Sócrates não deixa nem deixará a ladainha da culpa da crise internacional. Republico aqui, adaptado, como comentário ao debate de hoje, um post que há um mês publiquei no 31 da Armada).

 

Bernard Maddoff e José Sócrates são as duas maiores "vítimas da crise" dos mercados financeiros. 

 

O primeiro construiu um esquema em que os "rendimentos" estratosféricos dos seus investidores provinham directamente do capital investido por novos clientes. Conforme o próprio Maddoff reconheceu, tudo não passava de uma grande ilusão que nunca sobreviveria a um abrandamento dos mercados financeiros, quando diminuissem as entradas de dinheiro que mantinham o engodo. Uma vez chegada a crise, foi o fim da festa.

 

O segundo construiu um esquema em que a contracção de mais e mais dívida lhe permitiria vender mundos maravilhosos aos incautos. Sócrates nunca o reconheceu, mas tudo não passava de uma grande ilusão que nunca sobreviveria a um abrandamento dos mercados financeiros, quando os investidores se retraíssem e o Estado português, com a dívida que acumulara, só conseguisse obter financiamento para cumprir as obrigações dessa mesma dívida a taxas de juro proibitivas. Uma vez chegada a crise, foi o fim da festa.

 

São muitas as diferenças entre Sócrates e Maddoff - quase todas, certamente, em desfavor do grande trafulha americano. Mas há, também, uma equivalência fundamental e uma diferença em desfavor do louco que nos governa. A equvalência é a de que ambos impuseram a terceiros, com consequências catastróficas, uma mentira cuja dependência de um destino certo e trágico não tinham como ignorar. A diferença é a de que apenas Maddoff não enxota as culpas que lhe cabem.

08
Mai11

O que tu queres sei eu.

Francisco Mendes da Silva

O programa do PSD tem um capítulo dedicado à reforma do sistema político, do qual fazem parte, entre outras, as seguintes propostas:

 

1. A redução do número de deputados, de 230 para 181. Já disse aqui o que penso da ideia. É uma tentativa de golpe pelo partido que provavelmente mais tem feito por encher o Parlamento de caciques mudos e incompetentes. Até percebo Passos: o homem olha para a sua bancada como aquela pessoa que olha para a própria casa e se pergunta como foi possível acumular uma colecção tal de bibelots imprestáveis.

 

 

2. "A introdução de mecanismos de personalização das escolhas pela via do voto preferencial opcional". Estamos a falar, julgo, do sistema do alternative vote tal como na última Quinta-feira foi a referendo no Reino Unido (também conhecido por instant runoff na Austrália, por exemplo). É um academismo que seguramente foi vendido à direcção do PSD por alguma dessas estrelas da "ciência política" ou da "politologia" que a circundam, entediada com a vida inconsequente nos gabinetes da Universidade. A verdade é que se trata de um sistema que só é utilizado para eleger membros de assembleias legislativas nacionais em três países do mundo: Austrália, Fiji e Papua Nova Guiné. No Reino Unido - onde foi referendada por proposta dos Democratas Liberais, aceite pelos Conservadores como contrapartida da inclusão daqueles na coligação de governo -, foi derrotado inapelavelmente (praticamente 70% disseram que não o queriam). As desvantagens estão resumidas aqui e aqui.

 

Seja como for, o PSD embrulha a coisa na ideia habitual: aproximar os eleitos dos eleitores. Juro que nunca percebi por que raio o afastamento é culpa do sistema. Isso de culpar o sistema - a superestrutura - é uma mania marxista que só serve para desresponsabilizar e desculpar os indivíduos. O que é que, no modelo actual, impede um deputado de prestar contas aos seus eleitores e estes de lhas pedirem? Por exemplo, no distrito onde sou eleitor (Viseu), o que é que impediu o cabeça-de-lista do PSD, o Dr. José Luis Arnaut, de ser reconhecido pelos eleitores? Desde logo, foi a distância: devem contar-se pelos dedos das mãos as vezes que o Dr. Arnaut, nos oito anos em que foi deputado por Viseu, foi ao distrito em trabalho político, escutar os eleitores. E depois, claro, foi também o desinteresse dos eleitores, que nunca questionaram ou se indignaram com a ausência do seu mal-agradecido deputado.

07
Mai11

O PSD também defende os direitos adquiridos, desde logo o seu direito adquirido ao voto dos portugueses

Francisco Mendes da Silva

Pelos vistos, o PSD já desistiu de disputar as eleições ao centro, contra o PS, e partiu para a tentativa de conquista dos votos do CDS, aos quais acha que tem um direito divino. 

 

Percebe-se isso de duas notícias deste fim-de-semana.

 

1. Em primeiro lugar, a notícia da indisponibilidade de Passos Coelho para governar com o PS, publicamente declarada pelo próprio. O que Passos quer, obviamente, é forçar a ideia de que a única solução de governo, caso o PS vença as eleições, é uma coligação de Sócrates com o CDS. Havendo essa possibilidade, ainda que remota ou meramente virtual, os jornalistas - acha Passos - começarão a insistir com Paulo Portas para definir uma posição quanto ao assunto, até que se instale na campanha eleitoral a narrativa propícia. Se essa narrativa for "Portas fará arranjinho com Sócrates", Passos espera que muitos dos votos do CDS passem para o PSD.

 

Mas claro que esta posição de Passos Coelho pode muito bem ser um foguete que lhe estoire nas mãos, porque a situação não está para infantilidades e os portugueses (e os media) não estão para aturar irredutibilidades deste tipo. De momento, a única posição prudente e sensata é não projectar cenários, porque, como em nenhuma outra eleição, a formação do governo, da maioria que o apoiará e a forma como esse apoio será construído resultarão da vontade popular manifestada nas urnas. Passos mostra falta de humildade democrática e de espírito de liderança. Como bem sintetizou o Pedro Marques Lopes (um desiludido do passismo), "um líder nunca, mas nunca mesmo, comenta eventuais cenários futuros".

 

2. Em segundo lugar, e por falar em falta de humildade democrática, vejamos as declarações de Miguel Veiga ao Expresso de hoje, sobre Paulo Portas: "ouvi-lo dizer que quer ser primeiro-ministro é como se eu dissesse que queria ser Xá da Pérsia"; é "de um atrevimento inaudito"; é "pôr-se em bicos de pés"; são declarações "censuráveis e devem ser castigadas na praça pública". 

 

Como assim? Desde quando é que, em eleições legislativas democráticas, algum partido tem maior legitimidade do que qualquer outro para achar, antes do acto eleitoral, que poderá vir a indicar um primeiro-ministro? É preciso que o CDS e os seus apoiantes denunciem esta posição como inconcebível, até porque ela não é apenas a posição de um militante. Vê-se pelo conteúdo da notícia (Miguel Veiga não falou à margem de nenhum evento, mas directa e propositadamente sobre o assunto "Portas a PM") que a direcção do PSD "plantou" as declarações (e o Expresso, porque elas têm relevância pública, aceitou - e bem - publicá-las), através de um excêntrico militante "histórico" do Porto (apesar de 90% dos militantes do PSD não fazerem a mínima ideia de quem seja esse seu patusco companheiro e já ninguém se lembrar do que é que Veiga fez para entrar para a história do partido - se é que fez alguma coisa).

 

Quando se diz que o CDS não é - e não deve ser - um partido "subalterno", convém lembrar que essa subalternidade não é só institucional, programática e estratégica. Por vezes, em alguns militantes e simpatizantes do CDS, permanece uma certa subalternidade emocional, como se o PSD fosse um irmão mais velho a que só queremos bem. Pois em mim essa dependência não existe. Por muito que eu prefira que o PSD vença estas eleições, a fim de enxotarmos o PS, há uma coisa que me apazigua os dias: saber que, se o contrário acontecer, terei ainda assim, como motivo de festejo, a derrota desta gente, a quem sobra em soberba o que falta em competência. 

07
Mai11

O debate de ontem mostrou porque cresce o CDS

Francisco Mendes da Silva

Se bem percebi o espírito com que Paulo Portas encarou o debate de ontem, este terá servido para reforçar a ideia de que o CDS é um partido no qual se pode confiar a governação - esforço esse que, num país politicamente tão preconceituoso, não deve ser negligenciado. O pano de fundo era o ideal para sublinhar o contraste e Paulo Portas aproveitou muitíssimo bem a oportunidade. Jerónimo de Sousa apareceu como o rosto de um partido que é o cúmulo da insensatez política e da esclerose ideológica, enquanto Portas surgiu, por comparação, como um assomo raro de ponderação, magnanimidade, abrangência e liderança. Jerónimo falou das mesmas ideias abstractas de sempre (confundindo coerência com casmurrice); Portas, menos ambicioso, limitou-se a falar dos problemas que afectam Portugal e a vida concreta das pessoas.

 

Julgo que não tem sido suficientemente registada e apreciada a mudança que se tem vindo a fazer no CDS, que é hoje visto como um partido aberto, moderado e concentrado nas soluções para os problemas do país, e não apenas remetido à discussão em círculo fechado de questões identitárias ou puramente etéreas. Mas mais: o CDS percorreu esse caminho de pragmatismo sem abandonar os seus valores e, bem pelo contrário, o que isso significou foi, isso sim, a verdadeira afirmação desses valores. Se fizermos uma resenha rápida das principais posições do CDS, vemos que há um fio condutor claro: são posições de defesa das liberdades e do governo limitado, da prudência orçamental, da moderação fiscal, da segurança de pessoas e bens, do papel do Estado na protecção dos que menos possibilidades têm de exercer a sua liberdade (os pensionistas mais pobres, por exemplo) e do institucionalismo democrático. Em resumo, o CDS é o porto seguro para todos os que, partindo seja de que ideário for, se unem na convicção de que a política do progresso é a que promove o exercício responsável da liberdade dos indivíduos, das famílias e das empresas. E é isso que o faz ter este poder de atracção - de eleitores e militantes - que deixa tanta gente perplexa. 

 

Quem achar difícil explicar o crescimento do CDS, que perceba primeiro que, de todos os partidos, só o CDS cumpre os mínimos da maturidade democrática: é pragmático mas não inconstante, convicto mas não intolerante, doutrinário mas não dogmático. 

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